semiologia da poetica

PASSARINHO TEIMOSO

Desnorteado,

o passarinho solitário esvoaçava, aparentemente, feliz e contente,

volteando, dando no ar, reviravoltas mil, qual papagaio de papel levado pelo vento.

Mas eis, que, de repente, 

já elevado no ar ao nível de um quarto andar, uma altura considerável,

decide tentar entrar na janela do meu escritório, encontrando-se esta fechada,

mas com a persiana levantada na sua totalidade.

Obviamente, que, repetidamente, embateu com alguma ferocidade contra o vidro

da dita janela.

Tendo eu reparado na persistência do pequeno animal,

tentei, a partir do interior do meu escritório, de afugentá-lo batendo com um pano contra o

interior do vidro.

No entanto, ele, fingiu nada ver e, continuou durante algum tempo 

a tentar penetrar no espaço acima descrito.

É claro que, após várias tentativas falhadas, deveria ter abandonado

e, ir apregoar para outra freguesia.

Mas não.

O teimoso passarinho, queria a todo o custo irromper janela adentro,

não sendo, obviamente, possível.

Razão pela qual, ainda tentou mais uma última vez, mas sem sucesso.

A sua última investida contra o vidro foi de tal forma violenta que acabou por 

cair e ficar estendido de pernas para o ar no beirado da janela.

Nesse instante, abri a janela e peguei no passarito, coloquei-o na palma da mão e,

comecei a massajar-lhe a pequena barriguita, soprando simultaneamente no seu biquito

com o intuito de reanimá-lo.

Sim, é certo que possuo o curso de Primeiros Socorros, mas nunca me tinha ocorrido tentar 

reanimar um pássaro desnorteado e extremamente teimoso.

O pobre animal estava mesmo muito mal.

Talvez tivesse sido melhor que, eu não tivesse pegado nele, não movimentar a pobre criatura,

uma vez que isso poderia pô-lo ainda mais em risco.

Contudo, naquele momento, vendo que corria risco de vida, achei por bem pegar nele,

massajá-lo e soprar-lhe no bico.

Ele nem respirava, nem aparentava ter hemorragias externas.

O facto é que ele se encontrava em paragem cardiorrespiratória, daí eu, instintivamente,

começar desde logo a iniciar manobras  de Suporte Básico de Vida.

Lamento ter de dizer que todo o meu esforço foi, de certo modo, inglório, pois o pequenote,

passado algum tempo, encontrava-se efetivamente morto.

Sei que sou, também eu, por vezes, bastante egoísta e até algo insensível, mas a morte deste

pequeno animal deixou-me um pouco entristecido.

Mesmo assim, agora, passado algum tempo, sinto-me bastante bem comigo mesmo, pois,

posso garantir que, neste caso, pelo menos, tentei trazê-lo realmente à vida.

N.B. 

Neste mundo em que vivemos, a começar por aquele que está mais próximo de nós, na nossa comunidade, encontramos cada vez mais (desconheço a razão) indivíduos, que, estando tão próximos de nós, no nosso no dia a dia, constatamos que estão longe de nós, que nos ignoram, estão realmente a milhas de distância.

São pessoas frias, cruéis, insensíveis, indiferentes, impassíveis, apáticas, sem manifestarem a menor das emoções, sem manifestarem a menor empatia pelo outro, atitudes estranhas e bizarras que nos deixam arrepiados.

Por que será???

Responda quem souber.

Prof. Eduardo Teixeira

 

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